Grafias de vida e morte, e Ishi como um meshwork

Autores

  • Suely Kofes UNICAMP

Palavras-chave:

grafia, narrativa , biografia, morte, meshwork

Resumo

A intenção deste artigo é colocar sob suspeita as oposições entre narrativa e conceito, escrita literária e experimento científico, moderno e não moderno, entre a vida e a morte. Com este propósito, em primeiro lugar, eu apresento algumas discussões, principalmente, mas não apenas, antropológicas, sobre narrativas biográficas e, em seguida, apropriando-me do desenho descritivo de Ingold, o meshwork (linhas de vida entrelaçadas. Linhas que são movimentos e não conexão entre pontos como sugere a network) como um conceito eu desenho e analiso o que é contado sobre Ishi. Ishi apareceu faminto e maltrapilho em frente a um matadouro em Oroville. Ele foi levado por Alfred Kroeber para a Universidade da Califórnia e tornou-se personagem de uma biografia sucessivamente reeditada, escrita por Theodora Kroeber. Ele é também um personagem emblemático de disputas artísticas e políticas anticoloniais. Lévi-Strauss, em Tristes Tropiques (1955) conta sobre Ishi sem citar o nome que fora atribuído ao indígena e foi onde o “encontrei”. Ao contar as histórias contadas sobre Ishi pretendo aqui sugerir que biografia é também uma designação inapropriada porque obscurece a morte no conceito englobante de vida – bio- e assim não elucida a sua relação tensa. Com o conceito-desenho do meshwork, estou sugerindo uma grafia que não reitere a redutibilidade do biográfico ao indivíduo como oposto ao coletivo (seja este designado como sociedade ou considerado como um comum) nem opere com as oposições acima mencionadas. Finalmente, eu sugiro, que dobra é um necessário parceiro conceitual do meshwork.

Referências

BABCOCK-ABRAHAMS, B. “"A Tolerated Margin of Mess" : The Trickster and His Tales Reconsidered”, Journal of the Folklore Institute, Mar. 1975, Vol. 11, No. 3 (Mar. 1975), pp. 147-186, Indiana, Indiana University Press Stable URL: https://www.jstor.org/stable/3813932

BEHAR, R.: Translated Woman: Crossing the Border with Esperanza's Story, Boston, Massachusetts, Beacon Press, 2014.

BERTAUX, B. Le récit de vie, Paris, Armand Collin, 2016

BOURDIEU, P. “L’illusion biographique”, Actes de la Recherche en Sciences Sociales, Paris, Année 1986 62-63, pp. 69-72,

CECHINEL, A. “A acidentalidade do ser: alguns fantasmas de Henry James, do qual cito um trecho: “O primeiro dos textos em pauta, “The real right thing”, Revista Letras &Letras, v.28 n 2 p 753-767 jul/dez, Uberlândia-MG, 2012.

CLIFFORD, J: Returns. Becoming Indigenous in the Twenty-First Century. Cambridge, Massachusetts,

Harvard University Press, 2013

DELEUZE, G. A Dobra. Leibniz e o Barroco,(1988,) Papirus, Campinas, 1991

DICKINSON, E. link https://escamandro.wordpress.com/2018/02/22/23-traducoes-para-um-poema-de-emily-dickinson-1830-1886-por-matheus-mavericco/

DOUGLAS, M. (1955).” Baba of Karo: A Woman of the Muslim Hausa. By M. F. Smith. London”: Faber. 1954. 25s. Africa, 25(2), 195-197., 1955

FRANCO, H., "São Luís", de Jacques Le Goff, refaz a vida do rei e santo que sintetizou a Idade Média. A história tota.” Caderno Mais, Folha de São Paulo, São Paulo, Domingo, 2 de maio de 1999

GONÇALVES, Marco Antônio (org.): . Etnobiografia: subjetivação e etnografia, 7 Letras, 2012

INGOLD, T.: Being Alive, Routledge. Essays on movement, knowledge and descriptions, 2011

Making, Routledge, 2013.

KROEBER, T.: Ishi in Two Worlds: A Biography of the Last Wild Indian in North America, Berkey, Books, 1961.

LAHIRE, B.: Franz Kafka: Eléments pour une théorie de la création littéraire, La Découverte, Paris, 2010

LÉVI-STRAUSS, C.: O Pensamento Selvagem, P.289, 8ª edição, Papirus Editora, Campinas, 2008.

"Comment on devient ethnographe", IN Tristes Tropiques, Paris, Plon, Terre Humaine, Poche », 1984 (1955). “Como se faz um etnógrafo”, In Tristes Trópicos, Companhia das Letras, São Paulo, 1996 .

JAMES, H. (1893) “The real right thing”, IN Até o Último Fantasma, Companhia das Letras, SP, 2020 .

MARTY, E. Les règles de l'art selon Bourdieu: Esprit, Juin 1994, No. 202 (6) (Juin 1994), pp. 166-170 Published by: Editions Esprit, Paris, Stable URL: https://www.jstor.org/stable/2428343

KOFES, Suely. Trajetória, em narrativa. Mercado das Letras, Campinas, 2001

OLIVIER, E. in Marjorie Shostak, Nisa. The Life and Words of a! Kung Woman Cambridge, Mass., Harvard University Press, 2000, 365 p., gloss., L’Homme Revue française d’anthropologie 164 | octobre-décembre 2002

Smith, Mary F. Baba of Karo. A Woman of the Muslim Hausa, Faber, 1954.

SIMMONS, L.: Don Talayesa. Sun Chief: The Autobiography of a Hopi Indian, Yale University Press, New Haven, 1942

STRATHERN, M: Partial Connections, ‎ AltaMira Press; Updated edição , 2005

SERRES, M. Entretiens avec Martin Legros et Sven Ortoli. Pantopie ou le monde de Michel Serres. De Hermès à

Downloads

Publicado

2022-08-12

Como Citar

Kofes, S. (2022). Grafias de vida e morte, e Ishi como um meshwork. Frontería evista o rograma e Pós-Graduação m iteratura omparada, 3(4), 96–116. ecuperado de https://revistas.unila.edu.br/litcomparada/article/view/3536

Edição

Seção

Escritas fronteiriças: conexões culturais às margens da literatura