Quando ensinar português é também acolher

14-01-2026

No artigo “Por uma educação crítica, intercultural e antirracista: uma concepção freiriana para o ensino de português como língua de acolhimento”, as pesquisadoras Eliane Silva e Júlia Batista Alves colocam em debate um tema urgente no Brasil contemporâneo: como ensinar português de forma que a língua seja não somente ferramenta, mas abrigo, pertencimento e emancipação para estudantes brasileiros e imigrantes, especialmente em cidades de fronteira, como Foz do Iguaçu.

O estudo parte de uma constatação contundente de que não existe educação democrática sem enfrentar o racismo, o machismo e a xenofobia que atravessam a escola. Inspiradas em Paulo Freire e Catherine Walsh, as autoras defendem que o ensino de línguas precisa assumir um papel político, não partidário, mas profundamente humano, ao reconhecer quem são os sujeitos que chegam à sala de aula e quais violências históricas carregam.

Uma das curiosidades mais instigantes do artigo é a proposta de trabalhar literatura de mulheres latino-americanas, incluindo autoras negras e periféricas, como estratégia para promover letramento crítico entre estudantes brasileiros e hispano-falantes. Já na primeira atividade, textos como Gritaram-me Negra! (título pode receber itálico), de Vitória Santa Cruz, são utilizados como porta de entrada para conversas potentes sobre identidade, racismo e resistência.

Outro destaque é a escolha do Slam, poesia falada, coletiva e performática, como metodologia para criar ambientes de expressão segura e de partilha entre jovens de diferentes nacionalidades. As autoras mostram que a performance poética rompe silenciamentos e cria conexões profundas entre experiências diversas, tornando-se um recurso pedagógico eficiente para turmas heterogêneas.

O estudo também revela uma realidade pouco discutida: Foz do Iguaçu recebeu cerca de 15 mil imigrantes de 95 nacionalidades entre 2010 e 2022, tornando o ensino de português um desafio que ultrapassa a gramática. Envolve acolhimento, compreensão intercultural e combate às desigualdades estruturais que atravessam esses estudantes.

Eliane Silva e Júlia Batista Alves demonstram que ensinar português como língua de acolhimento é, antes de tudo, um ato de coragem e compromisso com a justiça social. O artigo é leitura indispensável para professores, gestores e todos que acreditam que a educação pode e deve transformar vidas.

Link para ler o artigo completo: POR UNA EDUCACIÓN CRÍTICA, INTERCULTURAL Y ANTIRACISTA: UNA CONCEPCIÓN FREIRIANA PARA LA ENSEÑANZA DEL PORTUGUÉS COMO LENGUA DE ACOGIDA | Revista Espirales